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"Alice no País dos Horrores"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.03.10

 

Ainda não coloquei o Tim Burton a navegar aqui. E nem o teria chamado neste dia tão claro e luminoso, de sol e frio, se não fossem as memórias que me assaltaram por tanto ouvir falar deste filme Alice no País das Maravilhas. Alice que eu vi a preto e branco, no tempo da idade impressionável. E que passou a ser, para mim, Alice no país dos horrores.

 

Nos livros e nos filmes, mesmo que queiramos descobrir perspectivas diferentes e desafiadoras, é sempre dentro de um mesmo sistema de referências, de coordenadas, de valores. Gostamos de ser surpreendidos, assustados, desafiados, mas não colocados de repente no caos. Por isso, quando vi a Alice a preto e branco, num clássico dos anos 40 (mesmo que fosse colorido, vi o filme na televisão, e a televisão era a preto e branco), senti uma angústia, quase pavor, naquele estado continuado de surpresa e susto, em que nada permanece, nem o tamanho, nem as situações, nem as personagens. Em que nada é previsível ou fiável, tudo pode acontecer.

É um estado de expectativa constante, de vigilância sem descanso, em que não podemos sequer parar tranquilamente a uma sombra amiga de uma qualquer árvore. A própria árvore pode desatar a falar ou até engolir-nos.

Sim, foram estas memórias de infância ou da pré-adolescência que esta Alice do Tim Burton me trouxe. Pensar que parte dos meus traumas se devem a simples histórias infantis... é quase ridículo. Não vi esses efeitos secundários em mais ninguém. E pensar que além desta Alice, também o Feiticeiro de Oz e aquela Bruxa Má (e também a preto e branco)... Bem, em todo o caso, o país da Alice é bem pior, bem pior do que a Bruxa Má, porque todas as histórias têm bruxas más, já é uma quase certeza. Mas países como aquele, em que se entra numa toca e nunca mais alguma coisa tem a ver com o mundo de onde se partiu, mas o país mais volúvel, histriónico, caótico...

 

Espero não escandalizar ninguém ao dizer que não gosto de Lewis Carroll. Pronto, está dito. A minha sensibilidade filosófica ou estética ou mesmo ética não sintoniza com a sua perspectiva, por mais criativa e original que seja.

Quanto a Tim Burton, também espero não pôr os cabelos em pé dos seus admiradores (que são muitos, eu sei), ao dizer que apenas gostei do Eduardo Mãos de Tesoura e doEd Wood. O Marte Ataca! pareceu-me genial, mas saltei algumas partes. De qualquer modo, só pelo Ed Wood teria valido a pena o Tim pegar numa câmara de filmar. É um filme insólito, irreverente, fora de qualquer classificação onde se queira arrumar. Tudo está no lugar, apesar da completa desarrumação. Os cenários, a fotografia, as cenas, os actores, tudo perfeito. Como é que este homem sombrio conseguiu construir aquela atmosfera de série B ou C, dos anos 60, e traduzir aquele fascínio, quase obsessão, pelo cinema? É um filme de culto, pelo menos para mim. E que me esqueci de colocar na minha lista dos filmes preferidos, no Perfil.

 

Mesmo que digam que o Tim Burton adaptou este país da Alice ao seu próprio mundo da fantasia, não me apetece ir ver esta Alice. É demasiado cenário, personagens que me são antipáticas, não me parece... Conhecendo a sua tendência sombria de noivas mortas e de barbeiros vingativos, não me parece. Prefiro rever o Eduardo e o Ed Wood até à exaustão. Fico por aí. Bem, talvez ainda veja o Marte Ataca! com olhos de ver e sem saltar nenhuma parte.

 

 

 

Curiosidade: Descobri no IMDB duas versões da Alice mas não consigo descortinar qual delas corresponde à versão que eu vi na televisão a preto e branco. Uma é de 33, outra de 49. É que o filme que eu vi já tinha alguns efeitos especiais interessantes. A Alice via-se a aumentar e a diminuir e andava sempre a dar de caras com as personagens mais estranhas. Os cenários também já eram muito elaborados. Bem, uma delas deve ter sido, são as mais prováveis.

 

E também aqui: Sobre a Alice de Tim Burton, um post do John, no Jardim de Micróbios, e outro da Margarida, no Criativemo-nos.

 

Coincidência feliz: Este post irreverente, Disorganized Thinking, de José Bértolo no Tio Vânia, sobre um outro filme "traumatizante" da minha infância (e ainda por cima, a preto e branco, mas isso já eu expliquei), o Feiticeiro de Oz.

 

 

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publicado às 12:05


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